Às pessoas brancas: o que podemos fazer com nosso privilégio?

Minha bisavó foi, provavelmente, uma das pessoas mais abertamente racistas que já conheci.

Num domingo à tarde, você provavelmente a encontraria sentada na calçada, naquelas cadeiras que balançam. Curvada sobre si mesma, ela prendia o cabelo branco com presilhas e encarava as pessoas que passavam pela rua. Tinha olhos aguados e intensos – e, toda vez que via uma pessoa de pele preta, xingava.

Da sua boca saíam palavrões que ela falava com vontade. Na época, todos à nossa volta achavam normal. Hoje em dia, a memória daquelas tardes me aterroriza.

De lá para cá, algumas coisas mudaram. Minha bisavó faleceu, mas a influência dela na família ficou. O cardápio do almoço de domingo eventualmente envolvia uma piadinha racista aqui, outra ali. “Nada contra pretos, mas…” 

Já falei contra essas piadas. Fui repreendida. Acho que sei por quê. 

É muito mais fácil fingir que nada está errado do que assumir que estivemos errados por muito tempo. É mais fácil ignorar do que confrontar nossos erros de frente.

Porém, este é o ponto: nossos erros precisam ser confrontados. 

Veja o caso de George Floyd, que está em todos os lugares na mídia. Se ainda acreditamos que nada está errado e que raça não tem nada a ver com o que aconteceu, sinto informar que estamos contribuindo para um sistema que perpetua a violência específica contra minorias.

Falar por pessoas pretas, asiáticas, indígenas e de outras raças e etnias nunca será meu lugar de fala, mas posso compartilhar um pouco de como tem sido reconhecer meu privilégio enquanto mulher branca – e ajudar você a entender o que fazer, exatamente, com o privilégio que tem.

Vamos lá?

Por que é importante falar sobre privilégio branco?

Não vou tratar do assunto como se você estivesse descobrindo apenas agora que o Brasil é um país racista. No entanto, vou reforçar alguns dados para que vejamos a gravidade da situação no nosso país:

Em 2018, o seminário “Mulheres Negras Movem o Brasil” mostrou que 58% dos casos registrados de feminicídio ocorreram com mulheres pretas.

Um ano depois, o IBGE mostrou que pessoas brancas recebem cerca de 75% a mais que pretos e pardos em todas as regiões do Brasil. Além disso, pessoas pretas e periféricas representam a maioria da população carcerária e estão mais expostas à violência, à fome e à pobreza.

É injusto. Historicamente injusto. Meu privilégio é consequência de anos de opressão de mulheres e homens que passaram pela escravidão, pela segregação racial, pela pobreza e pela brutalidade da polícia.

Isso significa que, por séculos, pessoas brancas têm se beneficiado da opressão, mesmo que não queiram.

Como?

Vou me tomar como exemplo.

Se olhar para trás e lembrar de como era o escritório em que trabalhei, vou me lembrar, majoritariamente, de pessoas brancas. 

Nunca tive dificuldade em encontrar personagens que fossem como eu e me inspirassem. Hermione Granger e Matilda estavam lá. 

Inclusive, todos os cientistas, inventores e pessoas importantes que estudei na escola tinham a minha cor.

E, a partir do momento que todos esses privilégios me beneficiam ao mesmo tempo que machucam outra pessoas, sou parte do problema também.

E é por isso que precisamos falar sobre privilégio branco e sobre o que você pode fazer com o seu.

Algumas ações que você pode tomar para ajudar

Embora já quisesse escrever sobre privilégio branco – dentro da ótica dos textos feministas que venho publicando por aqui -, decidi me basear em um post da Courtney Ahn (que é asiática, inclusive) para trazer o assunto à tona. 

Eu mesma não tenho as respostas certas – meus privilégios me cegam e nunca vou sofrer racismo. Por isso, peço licença para espalhar as quatro ações que Courtney traz à tona, sobre como podemos usar nosso privilégio enquanto pessoas brancas.

A primeira é ensinar outras pessoas brancas e tentar conscientizá-las sobre esses privilégios. É uma tarefa do caramba, porque tem gente que não quer ouvir – mas, quanto mais tentarmos, mais estaremos ajudando a resolver parte do problema.

A segunda ação é ouvir o que pessoas pretas, asiáticas e outras minorias raciais têm a dizer. Escute pontos de vista diferentes e aprenda com eles.

A terceira reforça o que Angela Davis já dizia: não basta não sermos racistas. Temos que ser anti-racismo. Isso significa que devemos confrontar episódios racistas que vemos diariamente (esta é a quarta ação, inclusive).

Devemos falar contra o racismo. Devemos agir contra o racismo. E sim, talvez eu esteja dizendo que se você não usa da voz que tem para condenar o racismo de maneira ativa, você é parte (latente) do problema.

A pesquisadora Lia Vainer Schucman explica melhor do que eu o porquê: 

Se 52% da população brasileira sofre racismo, é porque tem a outra porcentagem inteira para legitimar essa estrutura de poder.

Não dá para ficar só olhando e esperar o problema ser resolvido sozinho. Até porque, honestamente, ele não vai.

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