Competição entre mulheres: vale a pena competir com sua colega de trabalho?

Vou ser bem sincera com você: sou suspeita para falar contra competições. 

Não tenho gênio competitivo. Não gosto de competir. 

Quando jogo Mortal Kombat, por exemplo, deixo que me metam a porrada e aceito a derrota. Coisas da vida. Tem dia que a gente perde mesmo, né?

Mas, quando olho para trás, vejo que nem sempre foi assim. 

Durante toda a minha infância, fui continuamente estimulada por alguns adultos ao meu redor a competir com outras pessoas

Outras meninas, mais especificamente. 

Vitória, você tem que tirar notas melhores do que as da fulana, senão vai parecer burra. Precisa comer menos, pra ficar magra e bonita que nem siclana. E se vestir melhor, igual beltrana, senão vão achar que você não se cuida.

E, se você acha que os estímulos competitivos pararam quando minha infância chegou ao fim, sinto informar que não foi assim.

Enquanto crescia e me tornava uma mulher, parecia estar em constante estado de competição com outras mulheres.

Pensa numa partida que não acaba nunca. Sem técnicos, nem juízes, mas com regras sutis que repousam no tamanho das nossas cinturas, na expressão da nossa vaidade, nos nossos relacionamentos e em outras coisas mais.

De forma geral – tirando aqueles casos isolados, do tipo ‘eu nunca tive esse problema e por isso ele não é válido’ -, é difícil para uma mulher confiar em outra

Mulheres não são confiáveis, então?

Calma, não é isso que estou dizendo. 

O que quero dizer é que nós, mulheres, somos constantemente estimuladas a nos autopromover em cima das “falhas” de outras mulheres.

E tudo isso para quê?

Segundo este artigo da Psychology Today (escrito por um homem, é verdade), o senso de competição feminino se dá primeiramente pelo fato de que o grande interesse das mulheres, por muito tempo, foi encontrar um homem.

Essa teoria é reforçada por Chimamanda Ngozi Adichie (a própria) em “Todos devemos ser feministas”:

Nós criamos meninas para se enxergarem como competidoras – não para trabalhos ou conquistas, o que eu acho que pode ser uma coisa boa -, mas para conseguirem a atenção dos homens.

Minhas avós, por exemplo, foram criadas estritamente para o casamento. Por mais amigas que tivessem na vizinhança, viviam para agradar seus maridos e cuidar dos filhos. 

E, por mais que eu não tenha sido criada para me casar e ter uma família, não vou fingir que não fui influenciada por esse senso inútil de competição.

rebaixei outras mulheres para me promover e parecer mais atraente e inteligente. Não era incomum que eu pensasse umas coisas assim:

Ainda bem que, diferente de X, não preciso de chapinha pra me sentir bonita. Ainda bem que não tô acima do peso igual a Y. Ainda bem que isso, ainda bem que aquilo. Ainda bem que…

Tá notando a competição sutil em cada ainda bem? Tá notando que cada ainda bem vem acompanhado de um ideia boba de superioridade?

É aí que temos um problema.

O que você acha que acontece quando uma mulher que sempre foi treinada para pensar “ainda bem” entra no ambiente de trabalho?

“Muita mulher junta não dá certo…” Será?

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi que não se pode confiar em mulheres no ambiente de trabalho. Que somos especializadas em fofoca, inveja e competições passivo-agressivas. Que muitas mulheres em uma equipe não dá certo – e até que trabalhar com mulher é ruim.

Em teoria, somos muito competitivas e levamos várias coisas para o lado pessoal. Os homens costumam ser mais objetivos que nós.

Tenho que admitir: já vi mulheres fofocando. Já fofoquei. Já invejei outra mulher e fui invejada por ela. Já testemunhei reações passivo-agressivas entre duas mulheres da mesma equipe. Já fui passivo-agressiva também.

Mas, olha só! Já vi vários homens fazendo exatamente a mesma coisa. Mais de uma vez, tá? Mais de duas. Mais de três.

É bobeira associar determinado comportamento como inato a um gênero. 

Primeiro porque seria ingenuidade acreditar que toda mulher vai fofocar pelas suas costas e se autopromover em cima dos seus erros. 

Segundo porque o mundo já está cheio de noções ridículas que nos afastam ao invés de nos aproximar.

Pode ser que Chimamanda esteja certa ao afirmar que competir por trabalho é algo bom. O mercado é competitivo – temos que nos manter atualizadas e competentes, certo?

No entanto, gostaria de fazer algumas ressalvas aqui.

Entre competir com sua colega de trabalho e cooperar com ela:

  • Qual opção vai contribuir para a qualidade do projeto que vocês precisam entregar?
  • Qual opção vai trazer melhores resultados para a área e empresa em que vocês trabalham?
  • Qual opção é a mais prática? A mais lógica?
  • Qual opção vai deixar o RH mais feliz?

Vou deixar você tirar suas próprias conclusões, tá bom? 

Então, competir é ruim?

Não exatamente. Por mais que, pessoalmente, eu não goste de competir, acredito que há disputas tóxicas tanto quanto há disputas saudáveis.

Por outro lado, iniciativas incríveis estão saindo do papel por causa do apoio mútuo entre mulheres. O Mete a Colher, o The Squad, o NÓS… Todas essas iniciativas passam mensagens de acolhimento, força e união.

Clichê, mas verdade: a união faz a força. 

Você não precisa competir com outras mulheres para melhorar. Não precisa apontar dedos para se afirmar.

Na verdade, você tem capacidade própria para ser a sua melhor versão. E, se estiver em um ambiente de cooperação, é provável que prospere mais facilmente, sem ter que se autopromover em cima dos erros de outras pessoas.

(Vale lembrar que todo mundo erra, também, e sentar e assistir aos erros dos outros não é mérito nenhum.)

E, pra fechar o artigo, vou roubar uma frase da Emily V. Gordon:

Quando cada uma de nós tem como principal objetivo ser a força dominante no seu próprio universo, e não invadindo universos alheios, todas nós ganhamos.

Isso vale para todas – e para todos.

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