A insustentável leveza de estar incomunicável

Sábado, 25 de abril, 10h34

Deixei o celular no outro cômodo – a única dica de produtividade que funciona pra mim. Silenciei todas as notificações, decidi responder as pessoas no meu tempo. Nada mais entra nessa cachola hoje.

Não vou ler notícia nenhuma. Não quero saber do último impropério desgovernamental, nem da última personalidade famosinha que fez bosta e tá sendo linchada nas redes sociais. 

Não vou abrir nenhuma rede social justamente para não me atualizar, nem pra ocupar espaço da minha memória com informação desnecessária.

Me dou licença e admito: não quero saber do mundo externo.

(É que a minha cabeça é um mundo inteiro sozinha. E, se eu não tomo conta dela, nada mais importa. O mundo poderia estar lindo lá fora e não importaria. Com a cabeça ruim, não posso enxergar muita positividade.) 

Geralmente, só fico esperando a nova notificação, a nova onda de informação, mais um like, mais uma pequena dose de atenção momentânea.

Fico pensando: preciso sentir isso daqui, preciso escrever sobre isso daí, preciso comentar, preciso saber. Preciso fugir do óbvio – mas tantos óbvios ainda precisam ser ditos…

Por isso, apenas por hoje, não vou dar atenção pra nada.

Vou me isolar mentalmente. Não vou responder ninguém, por respeito às perguntas que preciso responder a mim mesma, sozinha. Não vou fazer nada que não queira, nem esperar nada de ninguém.

Estarei incomunicável para qualquer interação virtual.

(Como se estivesse em uma praia em Busan, sozinha e sem celular, sendo alguém que ninguém ao meu redor conhece.)


Domingo, 26 de abril, 16h37

Funcionou mais ou menos.

Consegui relaxar e escrever. Escrevi mais ontem do que no resto da última semana inteira. 

Mas, daí…

Peguei o celular à noite para pedir uma pizza, aproveitei e dei uns likes nas fotos de uma galerinha lá no Instagram. 

Aproveitei e também respondi uma mensagem ou outra no WhatsApp, dentre as várias que ficaram acumuladas. 

E, como tinha uns minutinhos, descobri no Twitter que Kim Jong-Un pode estar morto. Até vi uns memes sobre. 

Não resisti. 

Sou uma cidadã contemporânea da modernidade líquida. Eu fluo, não paro quieta. 

Mesmo que não queira, sei das coisas que acontecem, ao menos a nível raso. 

Me perco no espaço, no tempo, no mar de dados e autoverdades e, toda vez que acho que encontrei um cantinho pra me estabelecer, me perco de novo.

Num momento, estou incomunicável dentro do meu mundinho – no outro, imaginando como estão as famílias norte-coreanas, rezando pela salvação da mão que bate e afaga. 

Num momento, estou feliz por não falar com ninguém. No outro, sinto falta de interagir, de curtir, de falar sobre as novidades. 

O nome disso é equilíbrio, Vitória, tento me justificar. Mas aí, duvido da verdade absoluta do equilíbrio. E o que resta é uma reflexão mais importante do que qualquer pergunta.

Estou aqui, estou lá, estou em lugar nenhum.

E, para me achar de novo, tudo o que posso fazer é olhar pra dentro.

Vou ficar digitalmente incomunicável de novo, nem que por algumas horas.

Quem sabe funciona.

(Mas, se não funcionar, espero um dia esquecer o celular no Airbnb e ficar vagando pelas praias de Busan, sem falar com ninguém e sem saber nada do mundo…)

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