Antes da sororidade, é preciso paciência

Se há quinze anos alguém me pedisse para procurar a palavra sororidade no dicionário, eu não a encontraria.

Hoje, no entanto, basta jogar o termo no Google para entender que sororidade é a relação de “união, afeto ou amizade entre mulheres, semelhante àquela estabelecida entre irmãs.” E ela está aí, na boca da galera – tanto que as buscas pelo termo aumentaram 250% depois da Manu Gavassi ter falado sobre sororidade no BBB, já há algum tempo.

Como mulher e defensora de que devemos ocupar os espaços que queremos independente do gênero, reconheço a importância da sororidade. 

Porém, acredito que a ideia dessa irmandade afetiva esteja distorcida por algumas concepções irreais

Minha intenção com este artigo é expor essas concepções e abrir o diálogo para que tenhamos uma espécie mais humana de sororidade – aquela que, como promete o termo “humano”, é tão compreensível quanto errônea.

Vamos lá? 

As obrigações irreais da sororidade

A primeira concepção irreal de que quero falar tem a ver com moralidade.

No contexto feminista que estamos vivenciando, é moralmente exigível que você apoie outras mulheres. Que dê espaço para que elas expressem suas opiniões. Que divulgue e valorize o trabalho que elas fazem.

Mas o que acontece quando outra mulher age com valores em que você não acredita? O que acontece quando você discorda veementemente dessa mulher? O que acontece quando não faz sentido nenhum apoiar o trabalho que ela tem feito?

Você tem a obrigação de se unir e apoiar toda e qualquer mulher? 

A resposta mais adequada, nessa situação, é não. Você não tem a obrigação moral de apoiar toda e qualquer mulher, nem de se unir a ela. Por quê? Porque você vai mais facilmente conseguir se unir àquelas que possuem visão semelhante à sua. 

Pare e pense. Estamos mais propensas a nos aproximarmos de pessoas que pensam como nós e com quem temos afinidade. Provavelmente, seus amigos mais próximos concordam com você em uma série de coisas. Rola aquela sintonia, aquela compreensão mútua que deixa você à vontade para falar o que pensa.

Seria hipocrisia por parte da sororidade estimular que você se forçasse a estar próxima de mulheres com quem não se identifica e que podem, até mesmo, ser companhias que não te agregam em nada. Ou, pior, mulheres cuja convivência com você é tóxica.

Isso não significa que você vai ignorar as dores dessas mulheres e deixar de reconhecer sua luta, somando sua voz às delas quando for necessário. 

No entanto, é preciso reconhecer que haverá momentos em que você vai entrar em conflito com elas – e isso não diminui o propósito da sororidade. Afinal, achar que vamos sempre nos entender é um pensamento utópico.

As dores reais da sororidade 

Meu ponto é exatamente este: 

Ninguém tem sororidade inata dentro de si. Sororidade é um processo. Não é algo engessado. Pelo contrário, é maleável e exige exercício constante.

É semelhante ao que acontece em uma amizade ou em uma relação entre irmãs. Assim como há apoio e união, há brigas e discordâncias. Erros são cometidos até chegarmos a entendimentos melhores.

E é disso que tenho sentido falta quando trazemos o tema sororidade à tona na internet. 

Tem sido mais fácil cancelar mulheres que erram ou que têm opiniões divergentes do que realmente acolhê-las.

Já estive dos dois lados da moeda (para ser honesta, às vezes ainda estou). 

Já julguei mulheres que erraram e já errei (feio) e fui igualmente julgada. E foi nesses momentos que a sororidade se mostrou importante, mais do que nos momentos fáceis, em que estive rodeada de mulheres que estão em sintonia comigo.

Sem paciência, sororidade é só mais uma palavra bonita

Precisamos de paciência para aceitar que vamos errar com mulheres que precisam de nós e vice-versa. De bom senso e empatia para entender que nem toda mulher estará ao nosso lado quando a coisa apertar. Precisamos de humildade para concluir que não somos humanamente capazes de abraçar todas as lutas e ajudar todo mundo.

Se posso tirar uma conclusão do que a sororidade tem me ensinado, é que precisamos de paciência (sim, mais um pouco) principalmente para evitarmos machucar umas às outras com julgamentos e descasos.

Nem todas nós partimos do mesmo ponto: temos privilégios, opiniões e personalidades diferentes. E é daí que devemos começar, reconhecendo o que nos aproxima e o que nos distancia de outras mulheres e se é possível que nos unamos por uma causa em comum – mesmo que não nos tratemos como irmãs.

Eu mesma ainda não consigo tratar todas as mulheres com afeto. Não sei se um dia conseguirei. Não sei se sou capaz de ser, automaticamente, amiga de todas as mulheres. Mas estou disposta a fazer algo mais importante.

Ser paciente com aquelas que entram em conflito comigo.


Escrevi esse texto em um momento de reflexão profunda. Porém, mesmo ele tendo chegado a um fim, sei que ainda há muito potencial de discussão quando falamos sobre sororidade.

Deixa seu comentário aqui embaixo pra gente aproveitar esse potencial?

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