Uma conversa sobre frustração e autocuidado em tempos de pânico

Nem escrever este texto, nem postá-lo, estava nos meus planos.

Se tudo desse certo, eu estaria postando um artigo sobre como a prospecção de clientes (aquela lá, do mundo das vendas e dos negócios) pode te aproximar das pessoas certas para que você atinja seus objetivos mais facilmente. Porém, acho que esse tema pode esperar.

Hoje vou falar de frustração e de autocuidado. Sinto que todos nós estamos passando pela primeira e que, por isso, precisamos nos atentar ao segundo.

Tenho certeza de que você passou por alguma frustração na última semana. Adiamentos e cancelamentos, imprevistos, notícias ruins… Poucas pessoas não se abalaram com as implicações do COVID-19.

Em meio a tantas desinformações e pequenas doses de pânico, há alguns pingos de sensatez. Campanhas que estimulam a quarentena, reflexões sobre privilégios e desigualdade, sobre escolhas políticas e interesse coletivo. Ao meu ver, tudo isso é preciso para que entendamos o que não funciona mais no nosso modelo de vida e como podemos mudá-lo daqui em diante.

Inclusive, se tem algo que a crise está dando para mim e para você neste momento (considerando que você tem ficado em casa, assim como eu), é tempo para pensar. E espero que cheguemos às melhores conclusões e ações. Isso é necessário a nível comunitário e global.

Porém, se cuidar além do álcool em gel e da quarentena é igualmente importante. E é sobre autocuidado em tempos de frustração e pânico que quero falar hoje.

Vem comigo?

Precisamos aceitar que não podemos controlar tudo

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi pessoas dizendo que sou a principal responsável por criar as circunstâncias da minha vida e ter sucesso em tudo o que faço. Acho isso a maior furada.

É claro que há coisas que você pode controlar ao seu redor. Porém, essa não é uma verdade absoluta. Não é a sua vontade que vai, por exemplo, conter o coronavírus ou mudar a economia do dia pra noite.

Se pudesse controlar minha vida toda, garanto que estaríamos em um cenário político bem diferente do atual bem mais felizes do que estamos. Juro. Porém, isso não está ao meu alcance. 

Por mais minuciosamente que você se planeje, a verdade é que todos os seus planos podem ruir em questão de minutos. Resistir a essas mudanças imprevisíveis, ao invés de ajudar, vai te esgotar e desperdiçar sua energia.

Se eu não tivesse aceitado que esse não é o melhor momento para viajar e adiado todos os meus planos de nomadismo digital, teria me iludido e me machucado. Com voos cancelados para a Coreia do Sul, não poderia sair do país. E, ainda que pudesse, seria uma grande irresponsabilidade colocar minha saúde – e a dos outros – em risco. Não teve outro jeito. Tive que aceitar que este não é o momento para sair viajando por aí. 

Não podemos controlar o momento que estamos vivendo. Alguns planos vão cair por terra, outros vão mudar. Nenhum imprevisto vai bater na sua porta e educadamente pedir licença para virar sua vida de cabeça pra baixo.

É por essas e outras que você tem que aceitar o momento como ele é. Isso faz com que você se desligue do impossível mais facilmente, por mais frustrante que seja, e foque sua energia no que é viável e factível. 

Faça o exercício. Liste as coisas que estão dentro da sua zona de controle e coisas que estão fora dela. Isso vai te ajudar a visualizar o que não depende de você e para onde você pode direcionar sua criatividade e esforço. 

Em momentos de pânico, vigie seus pensamentos 

Nos últimos dias, fiquei em estado de inércia em mais de uma ocasião por causa do medo e do pânico generalizados. 

Fronteiras fechadas, aumento do número de mortos, parentes que estão no grupo de risco, planos sendo adiados… Houve um dado momento da minha rotina em que tudo o que eu conseguia fazer era dar F5 nos sites de notícia e esperar pelo pior. 

Consumir informação desse jeito desregulado me deixou com medo. E, quanto mais medo sentia, menos eu colocava a cabeça no lugar e focava no que tinha que fazer

Não vigiar seus pensamentos nesses momentos de pânico só vai alimentar a ansiedade e o pânico a que a mídia te expõe constantemente. 

Não estou dizendo que você não deve se preocupar. Muito pelo contrário. Só o que recomendo é que você se atente aos seus pensamentos e sentimentos e que não deixe que eles te prendam em um estado de inatividade e pavor

Consegui vigiar os meus me obrigando a não entrar em sites de notícia mais do que duas vezes ao dia. Desliguei notificações e deixei o celular em outro cômodo para focar nas minhas tarefas. 

Funcionou – por umas três horas. Depois, já estava querendo saber em que pé as notícias estavam mais uma vez. Pois é, vigiar meus pensamentos e ações é um exercício constante – mas vale cada tentativa. 

Exercite a habilidade de olhar para dentro e ressignificar as coisas

Emprestei essa reflexão de um poeta chamado Rainer Maria Rilke.

Em Cartas a um Jovem Poeta (super recomendo a leitura), Rilke fala sobre a importância de olharmos para dentro de nós mesmos e nos conhecermos. 

Para mim, esse olhar está intimamente conectado com o autocuidado.

Quando pensamos no nosso papel em toda essa situação, vemos que somos criaturas pequenas. Insignificantes, até certo ponto. 

Edificamos o capitalismo e o lucro. Construímos patentes. Inventamos a noção de tempo. Pisamos na Lua. Porém, não sabemos direito como viemos parar aqui, nem para onde vamos. Não podemos lutar contra a morte. Embora tenhamos as condições, nem todos de nós vivem uma vida digna e justa.

Entender que somos frágeis, vulneráveis e impotentes em certas situações é reflexo desse olhar interior, do conhecimento de nós mesmos e da humanidade. 

No entanto, também podemos entender que somos capazes de refletir e reivindicar soluções mais eficazes para o meio em que vivemos em meio a crises como essa. 

Lembra que resistir ao que você não pode controlar pode te machucar? Em termos mais práticos, olhar para dentro também é importante para que você consiga ressignificar seus planos e fazer apenas o possível.

Ressignificar é necessário nesse momento e será necessário em outros. Nada garante que seus planos não serão afetados lá na frente, por outros motivos que hoje você desconhece. 

Nem vou dizer que você tem que se preparar para o que der e vier, pois acho essa frase utópica demais. Ainda assim, com a minha frustração pessoal, fiquei com a lição de que a habilidade de dar novo sentido às coisas é uma mão na roda. 

Meu plano A, que me levaria para a Coreia do Sul em abril, não deu certo. O plano B, que me levaria para a Tailândia, também não. Agora, estou traçando o recém-rascunhado plano C, buscando novos jobs e focando no meu projeto de vida enquanto fico dentro de casa.

Para finalizar, queria só estimular você a dar um novo significado a esse momento de quarentena. 

Tire lições novas com o que te acontece. Entenda a experiência. Compartilhe pensamentos com outras pessoas. Pense em outros rumos. Reinvente. Ajude da maneira como puder.

Acho que, por enquanto, é isso que nos resta fazer.

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