Está na hora de escrever o livro que você quer ler

Quando era criança, sonhava em ter um livro publicado. Me imaginava indo de editora a editora para oferecer meu manuscrito, certa de que seria rejeitada, mas que encontraria a oportunidade perfeita algumas tentativas depois.

Nunca teria imaginado que essa oportunidade seria a internet.

Não é segredo que a internet permitiu que escritores do mundo todo tivessem os meios necessários para publicar suas histórias de maneira autossuficiente. 

Em seu programa de publicação independente (Kindle Direct Publishing (KDP) em inglês), por exemplo, a Amazon permite que uma pessoa publique, sozinha, e-books e livros físicos. A publicação leva menos de cinco minutos. Em quarenta e oito horas, no máximo, o livro está disponível nas lojas Kindle do mundo inteiro. 

Ou seja, se você quisesse publicar seu livro hoje, eu poderia comprá-lo e, instantaneamente, sua obra estaria na minha lista de leitura do Kindle. Incrível, né?

Ao publicar seu próprio livro, você teria maior controle sobre seus direitos autorais e definiria o preço pelo qual ele seria vendido. Também seria possível fazer alterações no texto, independente da hora ou do lugar. Tudo isso de graça.  

Se alguém me contasse tudo isso, há dez anos, eu não teria acreditado na utopia da publicação independente que me levou a publicar meu primeiro livro. Porém, essa realidade está aqui. 

A internet e a democratização do setor editorial

Uma coisa colocava muito medo em mim toda vez que cogitava oferecer meu livro para as editoras: a edição. Por ter um estilo que podia beirar ao dadaísmo, sabia que partes do meu livro – que até então não havia nem mesmo sido finalizado – seriam descartadas ou modificadas.

Não me leve a mal. Sei que devemos cortar informações que não agregam absolutamente nada à história. Ainda assim, me pego pensando na quantidade de personagens interessantes e frases geniais que foram desconsideradas no modelo de publicação tradicional.

Historicamente, o setor editorial serviu ao contexto capitalista da oferta e da demanda. As ideias mais aceitáveis dentro desse contexto foram privilegiadas de maneira que a indústria não apenas saciava os gostos da sua audiência, mas dava forma a eles e garantia a sua homogeneidade. 

Para ficar mais claro, pense na quantidade de distopias infanto-juvenis que bombaram na última década. Ou nos romances entre humanos e criaturas sobrenaturais como vampiros e zumbis. Pense em bruxos, dragões. Aposto que você imediatamente se lembrou de Harry Potter, Crepúsculo e Game of Thrones.

Agora, pense em quantos livros você já leu – ou já ouviu falar – sobre os desafios da educação nas periferias, sobre resistência indígena e sobre modelos radicais de reforma política. Notou a diferença?

É claro que esses livros poderiam ter sido publicados no modelo tradicional. Entretanto, é fácil notar que tais tópicos não foram tão divulgados e conhecidos pelo público. Afinal, a indústria dava maior importância aos temas que lhe eram interessantes financeira e ideologicamente. 

Os modelos democráticos de publicação na internet são uma maneira de solucionar o desequilíbrio gerado pelo filtro desse mercado tradicional. Se essa indústria não estava muito disposta a publicar livros provocativos que instigassem reflexões no público, hoje em dia é mais fácil que nós, por nós mesmos, façamos isso.

Escrever o livro que você quer ler é um ato revolucionário – e vou te contar por quê

Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo.

A frase acima é de Toni Morrison, escritora estadunidense cujo trabalho retratava a realidade das mulheres negras nos Estados Unidos e falava abertamente sobre raça e gênero.

Em 1993, Toni tornou-se a primeira mulher negra a ganhar um Nobel da Literatura. Ao escrever o livro que gostaria de ler, ela transformou suas dificuldades em obra prima e foi mundialmente reconhecida pela importância de sua narrativa. Toni Morrison escreveu para revolucionar e mudar – e, usando seu exemplo, vou me permitir uma reflexão clichê:

Seja a mudança que você quer ver no mundo.

Nunca antes na história da humanidade, estivemos tão aptos a usar das ferramentas corretas para fazer essa mudança. Os livros são, sem sombra de dúvida, uma dessas ferramentas.

Continuar publicando livros que passam as mesmas mensagens não é interessante em um mundo tão conectado e complexo como o nosso. Temos uma variedade insana de realidades para retratar. Perpetuar a mesma cultura não seria permanecer no mesmo lugar? Não estaríamos negando as novas representatividades que merecem espaço na era digital?

Se não há um livro que fale sobre um episódio difícil na sua vida, escreva esse livro. Fale sobre suas paixões, suas dores e suas emoções. Fale dos seus medos e como você conseguiu superá-los, ou de como pretende fazer isso. De novo: se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo.

Seja seu próprio editor e valorize suas peculiaridades

Lembra que escrevi, um pouco mais pra cima, que o mercado editorial conservador moldava os gostos da sua audiência? Isso não muda quando falamos da publicação multicultural que se coloca ao nosso dispôr na internet.

Pense na quantidade de pessoas que nunca teriam condições de publicar um livro através de uma editora e que, hoje em dia, podem levar sua mensagem a leitores do mundo todo. 

Pense em como as histórias que essas pessoas publicarem tocarão públicos diversos que se sentirão, enfim, representados. Pense no quanto essa representatividade é importante para criar novas oportunidades e atrair uma audiência ainda maior. 

Ficção ou não, o ato de contar histórias tem nos conectado há séculos e feito com que passássemos culturas e crenças adiante. Livros e histórias nos trazem lições valiosas e aprendizado constante. Mais do que isso, eles fazem com que visualizemos situações e nos espelhemos em personagens que nos inspiram. Livros podem ser nossa válvula de escape, nossa salvação.

Quantos mais de nós estivermos dispostos a escrever e a ler histórias que desafiam os padrões estáticos de uma realidade privilegiada e dominante, mais rapidamente vamos alcançar as mudanças que queremos ver no mundo.

Para fechar o texto, vou dar uma dica! 

O próprio Stephen King diz que, quando você escreve uma história, você está contando essa história pra você. Ele também diz que, quando você edita uma história, você deve pensar no seu público.

Por isso, pense no que te conecta a quem te lê. Olhe para dentro de você e seja verdadeiro. Nunca, na linha do tempo da humanidade, sua capacidade de contar histórias teve tanto potencial de alcance como hoje. Tire proveito disso. Seja seu próprio editor e valorize suas peculiaridades. 

Escreva o livro que você quer ler.


Espero que tenha gostado do artigo da semana e adoraria saber qual é o livro que você quer ler. Me conta nos comentários? 


Lembrando que você pode comprar minha coletânea de contos e crônicas, Maquinaria, aqui nesse link. Me dê seu feedback caso leia, ok?

Foto por Yusuf Evli.

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