A fabricação de ídolos e a escassez de saúde mental no mercado do k-pop

Com fãs fiéis ao redor do mundo, o fenômeno do pop sul-coreano (k-pop) tem alcançado paradas globais e ocupado espaço no Ocidente. Ele chama a atenção pela versatilidade de conceitos, pela produção de seus MVs (music videos) e pelo carisma de suas girl e boy groups

(Isso porque não citei as músicas chiclete, aquelas que grudam e insistem em ficar na nossa cabeça.) 

Para ter noção da magnitude desse mercado, a indústria do k-pop chega a movimentar mais de 16 bilhões de reais por ano.

Além do idioma em que as músicas são cantadas, o k-pop diverge do mercado ocidental por uma série de outros fatores. Um deles é a maneira como artistas são contratados e treinados pelas agências de entretenimento sul-coreanas.

Para fazer sucesso, meninas e meninos passam anos da sua infância e adolescência trabalhando como trainees. Enquanto se preparam para se tornarem estrelas, esses jovens têm aulas de dança, canto e são orientados a manter uma imagem pública aceitável.

E é aí que as coisas complicam um pouco.

Gestão da imagem dentro de padrões tóxicos

Os sul-coreanos são, em geral, uma sociedade muito vaidosa e que se preocupa muito em como é percebida pelos outros.

Para dar um exemplo, vou contar que existe uma tabela de peso e altura ideais aos sul-coreanos. Uma mulher cuja altura seja de 155cm (a minha) deve pesar, no máximo, 44,5kg (e garanto que não estou nem perto de pesar isso). A tabela foi divulgada em uma revista feminina; o assunto, comentado no livro “When Culture Impacts Health”, de Cathy Banwell e Jane Dixon.

Essa, entretanto, é apenas uma das maneiras pelas quais os padrões estéticos e comportamentais se manifestam na Coreia do Sul.

O mercado construtor de idols (ídolos) – como é chamada a parcela de jovens que consegue ser debutada e promovida na indústria do k-pop – está repleto de padrões que influenciam esses jovens de maneira grave.

Meninas comemoram por estar abaixo do peso e, assim como meninos, passam por dietas rigorosas – com valores nutricionais míseros – para ficarem “em forma”. Alguns deles, inclusive, têm que passar por procedimentos cirúrgicos para se ajustarem aos padrões de beleza. 

Porém, a pressão vai além do físico. A maioria das empresas de entretenimento assina contratos em que há cláusulas proibitivas, impedindo que os idols, por exemplo, usem smartphones ou namorem. Relacionamentos que se tornam públicos têm grandes chances de serem rompidos por pressão do público e da própria empresa. 

Como se não fosse o suficiente, a maior parte do lucro dos girl e boy groups fica com as empresas. Afinal, elas pagaram pela sua moradia (todos os idols obrigatoriamente saem de casa para morar com idols do mesmo grupo), pelo seu treinamento e pelos retoques visuais. Mesmo os grupos de k-pop mais bem sucedidos demoram a ter retorno financeiro em suas contas bancárias. É preciso muito trabalho para fazer sucesso.

Com todo esse cenário à mostra, a impressão que fica é a de que as agências de entretenimento contratam robôs pré-programados e não seres humanos cujo sonho é contribuir para a música de seu país. 

O papel da opinião pública

Com um índice de 95% de estresse a nível populacional e com as mais numerosas ocorrências de suicídio dentre os países da OCDE, a sociedade sul-coreana deixa a desejar quando o assunto é opinião pública.

Quilos a mais, coxas grossas e olhos sem pálpebras duplas são o suficiente para despertar os mais variados tipos de xingamentos de internautas que, no anonimato, não poupam esforços para criticar. Tais críticas se intensificam quando o assunto é doença mental, enxergada por muitos sul-coreanos como falha de caráter e fraqueza.

Ainda assim, escândalos como o do cantor Seungri, acusado de embebedar garotas em seu clube noturno a fim de coagi-las a ter relações sexuais gravadas com seus clientes, são silenciados pelo bem da moral.

Ainda assim, poucos criticam fotos de meninas de dezesseis anos em saias curtíssimas e em posições duplamente inocentes e sensuais – que existem, obviamente, para atrair o olhar do público masculino.

O fato de que o público continua apoiando padrões estéticos e o tratamento dado a esses jovens é, no mínimo, problemático. Em uma sociedade tão estressada, comportamentos tóxicos que perpetuam a insensibilidade podem ser facilmente explicados – mas não justificados. 

Esse tipo de atitude pode levar a acontecimentos extremos. Artistas como Jonghyun e Sulli, que tiveram a coragem de defender a diversidade e entendiam a importância de falar sobre saúde mental publicamente, tiraram a própria vida após terem sido alvo de comentários maldosos na internet.

A ascensão de novos modelos de negócio no k-pop é urgente

Se por um lado a opinião pública tem falhado em protestar contra o tratamento desumano das agências de entretenimento em relação aos seus artistas, por outro as reivindicações internacionais se manifestam diariamente na internet. 

Fãs do mundo todo pedem uma gestão mais humana, que priorize o talento de artistas e proporcione um ambiente saudável ao seu desenvolvimento.

Seria ótimo se idols tivessem direito à liberdade individual para namorarem e ficarem com a família, já que, como pontuei, todos costumam morar juntos em um mesmo apartamento. Seria igualmente ótimo se, juntos, idols pudessem trazer à tona as suas dificuldades e os horrores a que são submetidos. 

Os avanços são tímidos nesse sentido. Alinhado à opinião pública, o mercado do k-pop continua lucrando e cumprindo com a sua promessa: oferecer, para o deleite dos olhos do público, garotas e garotos bonitos que dedicarão toda a sua vida a agradar fãs, mas não a si mesmos.

Lentas – mas boas – mudanças

Mudanças positivas já ocorreram no mercado da música sul-coreana. 

Uma delas foi a fundação da P NATION, agência de entretenimento fundada pelo Psy (aquele do Gangnam Style, que bombou em 2012, lembra?), que abraçou o namoro público de dois ídolos que foram expulsos de sua agência anterior por estarem juntos.

O segundo caso é a disseminação de mensagens positivas e realistas do grupo BTS, um dos mais famosos da atualidade. Com letras que falam sobre saúde mental e amor próprio, o grupo foi o grande vencedor do MAMA 2019, premiação importantíssima na indústria do entretenimento (pense no Grammy sul-coreano), que rendeu ao grupo nove prêmios.

Há um ano, ainda, o grupo feminino LOONA lançou o primeiro MV de alta representatividade mundial, retratando asiáticas, negras e latinas e passando uma mensagem de libertação e coragem a todas as mulheres do mundo.

Lentamente, alguns artistas também tem usando plataformas sociais para denunciar maus tratos e falar sobre seus problemas, como ansiedade e depressão.

O ato de compartilhar e mostrar vulnerabilidade pode ser revolucionário em um país em que a depressão é encarada como fraqueza. Além disso, pode ajudar espectadores que, espelhados nesses jovens ídolos, decidem ser fortes também.


Curtiu o artigo ou lembrou outros exemplos de artistas que tiveram relações tóxicas com o público? 

Deixe um comentário e compartilhe sua opinião e suas ideias sobre o assunto!


Foto: Grupo Red Velvet, SM Entertainment (2019)

2 comentários em “A fabricação de ídolos e a escassez de saúde mental no mercado do k-pop

  1. Para nós, fãs internacionais, é mais fácil compreender que nossos idols favoritos podem sim passar por problemas de saúde tanto emocional quanto psicológica, vemos isso como alerta, nos preocupamos e cobramos por mudanças e mais cuidado no tratamento deles como profissionais. Por outro lado, a parcela de fãs que vêem isso como fraqueza e desvalorizam os sentimentos desses artistas ainda é grande e pouco adepta à mudança de pensamento, pois fazem parte de uma sociedade com cultura diferente da nossa no ocidente, pessoalmente, acredito que nada justifica você julgar os sentimentos alheios e menosprezá-los pois “escolheram essa vida e que aguentem”, isso é doentio. Acompanho meus idols favoritos em suas redes sociais e, é notável esse comportamento que você tão bem destacou no seu artigo, existem aqueles que se revoltam e denunciam, mas infelizmente ainda somos uma minoria dentro desse universo. Campanhas como as que o BTS têm feito para falar sobre esses assuntos tem ganhado bastante visibilidade e mudado muita dessa mentalidade. Um pequeno passo mas ainda é necessário mais apoio e empatia, coisa rara no mundo em que vivemos. Parabéns pelo artigo, se você puder escrever mais a respeito eu adoraria ler.

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    1. Muito bacana o que você ressaltou – ninguém escolhe um estilo de vida unicamente para sofrer. Esses jovens sabem das dificuldades, mas isso não justifica o tratamento que é dado a eles. Tenho visto que alguns idols estão se afastando da indústria para cuidar da saúde, e que outros estão assumindo seus relacionamentos mais abertamente, e isso é ótimo – mas ainda temos bastante trabalho a fazer para “naturalizar o natural” em uma cultura de consumo que é muito tóxica. Muito obrigada pelo seu comentário e pretendo sim escrever mais sobre a cultura coreana no futuro! 🙂

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