Como combinar sanidade com informação?

Se por um lado a tecnologia nos trouxe a possibilidade de expandirmos nossos horizontes e conquistarmos novos conhecimentos, por outro ela está cheia de armadilhas que impedem a nossa ação e nos deixam angustiados.

Longe de mim demonizar a internet e todas as suas oportunidades. No entanto, é preciso reconhecer que o consumo excessivo de informações tem alimentado nossa ansiedade como nunca antes. Estamos vivendo tempos em que queremos estar atualizados sobre tudo, sem tempo hábil – e neurônios – para tanto.

A vida é breve – a internet, nem tanto

É natural que eu, recém formada em Relações Internacionais e curiosa do jeito que sou, queira saber tudo sobre os protestos em Hong Kong e sobre a presença dos curdos na Síria. No entanto, é impossível que eu leia sobre tudo isso para me manter atualizada, dia após dia. Mesmo que eu conseguisse, a sobrecarga de informações seria maior do que a minha capacidade de processá-las. Por fim, gastaria meu tempo lendo coisas das quais nem me lembraria mais tarde.

A todo o momento estamos expostos a um catálogo de informações excessivas que excedem nossa capacidade de absorção e aprendizado. Notícias – muitas vezes calamitosas – sobre política, ofertas de produtos que não precisamos, atualizações no feed das redes sociais, livros que temos que ler para sermos mais conscientes, inteligentes, ricos…

É tanta informação e cobrança que, ao final do dia, não conseguimos lembrar os dados que captamos. Na ânsia por querer saber tudo, acabamos não sabendo nada

Você consegue se lembrar de todas as notícias e conteúdos que consumiu hoje?

Esses dias assisti a um vídeo da Rita von Hunty, drag queen que debate, de maneira muito lúcida, atualidades conectadas à forma como temos vivido os nossos tempos modernos. Rita trouxe à tona o FOMO (fear of missing out), medo do qual eu acreditava estar imune até refletir mais profundamente sobre os seus sintomas.

O FOMO se sintetiza pelo medo de estar perdendo algo; pela ansiedade de estar continuamente atualizado a tudo o que está acontecendo e a tudo o que os outros estão fazendo. A internet, ambiente que mescla comodidade, praticidade, vício e dependência, é um canal perfeitamente frutífero para o FOMO prosperar.

Quando possuímos esse medo, nunca sabemos o suficiente. Nunca estamos prontos. Consequentemente, nos tornamos vítimas de uma imobilidade que não nos permite transformar informações em ações.

Você não precisa – e nem vai – saber de tudo

Existe um conceito que tem me ajudado a lidar com os momentos em que me desespero por não saber aquilo que cobro de mim mesma. Originário do Japão, o wabi-sabi almeja enxergar beleza nas imperfeições e irregularidades da vida. Na sua ótica, um objeto consegue ser belo mesmo que esteja repleto de rachaduras e remendos.

Transportando o wabi-sabi para o nosso contexto, podemos nos tranquilizar um pouco: você não irá conseguir saber sobre tudo e sobre todos, mas está tudo bem. Está tudo bem não ler aquele livro do qual todo mundo está conversando, ou assistir aquela série que é o assunto principal no café da manhã da empresa. 

Contanto que você esteja a par do que realmente lhe interessa, está tudo bem.

Um caminho muito eficaz para fazer isso é ser seletivo e filtrar quais informações são importantes para você. É claro que é interessante diversificar suas fontes de pesquisa, mas entenda que, mais essencial que isso, é priorizar o que faz mais sentido para o seu conhecimento e desenvolvimento. 

Vai fazer aquele curso que vai aperfeiçoar suas técnicas de comunicação? Ótimo! Ler aquela notícia de um caso que tem acompanhado e que lhe interessa? Legal! Assistir àquela série na sexta-feira à noite só pelo prazer da atividade? Beleza!

O importante é saber o que te motiva e o que você pretende ao consumir o que quer que seja. Isso ajudará você a optar pela qualidade e não pela quantidade de informações. Também é uma ótima opção para tornar suas leituras mais prazerosas.

Incorporando a informação

Conheço pessoas que diminuíram o número de leituras por ano e conseguiram trabalhar em projetos que não saíam do papel há tempos, ou pessoas que organizaram horários e restringiram seu tempo de navegação e conseguiram ser mais produtivas tanto em sua vida pessoal e profissional.

Lentamente, isso tem acontecido comigo. Não me precipitei em leituras que me serviriam como “guia” pois ainda preciso aproveitar as mais recentes e botar a mão na massa. Incorporar a informação e permitir a sua metamorfose em ação é terapêutico contra a ansiedade e receios que nos imobilizam. Encontramos, na realização de atividades, um estímulo para o aprendizado efetivo, aquele que de fato acrescenta e agrega ao seu propósito.

Para concluir, deixo uma leve provocação. Enquanto sociedade, seria muito vantajoso para nós mesmos que nos organizássemos acerca do que é imprescindível para não cairmos na ignorância e na inércia. Em tempos de fake news e autoverdades, só temos a ganhar caso percamos o hábito de acompanhar passivamente os impropérios feitos contra nós. Ler é essencial, claro – mas fazer também é.


Foto por Irina Vinichenko.

2 comentários em “Como combinar sanidade com informação?

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